01/11/2026

O intercâbio em Andover:uma experiência linguística e cultural

O intercâmbio em Andover:uma experiência linguística e cultural

 Existem viagens que fazemos para conhecer lugares e outras que realizamos, sem perceber, para descobrir um pouco mais de nós mesmos. Algumas permanecem nos álbuns de fotografias; outras sobrevivem na memória como capítulos de uma história que o tempo não consegue apagar. Minha experiência de intercâmbio em Andover, na Inglaterra, pertence a essa segunda categoria. Foi uma viagem que começou com o desejo de aperfeiçoar meu inglês e terminou como uma extraordinária lição de convivência, diversidade cultural, independência e respeito às diferenças. Naquela época, eu morava na Argélia e estudava no Lycée Descartes, em Argel, uma instituição francesa que representava uma verdadeira Organização das Nações Unidas em miniatura. Estudantes de diferentes nacionalidades, culturas e crenças compartilhavam salas de aula, ideias e inquietações. Foi naquele ambiente cosmopolita que aprendi a importância do pensamento crítico, da leitura, do diálogo e da pluralidade. A educação, compreendi desde cedo, não deveria apenas transmitir conhecimentos, mas despertar consciências e abrir janelas para o mundo.

A oportunidade de realizar um intercâmbio na Inglaterra surgiu como uma possibilidade de aprofundar meus conhecimentos da língua inglesa e conhecer uma sociedade diferente daquela em que vivia. Meu destino foi Andover, uma cidade do condado de Hampshire, onde frequentei uma grammar school. A experiência escolar britânica apresentava métodos, hábitos e relações distintos dos que conhecia no Lycée Descartes. O desafio não consistia apenas em acompanhar as aulas, mas compreender sotaques, expressões e maneiras de pensar. Descobri que aprender uma língua estrangeira significa muito mais do que memorizar regras gramaticais. Significa penetrar no universo cultural de outro povo, compreender seus códigos e reconhecer que existem inúmeras maneiras de interpretar a vida. Cada conversa representava uma conquista e cada dificuldade superada aumentava minha confiança. Era a juventude descobrindo que o conhecimento não conhece fronteiras.

Uma das experiências mais enriquecedoras daquele período foi a convivência com a família Mabey, que me recebeu em sua casa com generosidade e carinho. Tratava-se de uma família britânica que já havia morado no Brasil, circunstância que estabeleceu imediatamente uma ponte afetiva entre nossas histórias. Eu chegava da Argélia, trazendo minhas raízes brasileiras e uma formação influenciada pela cultura francesa. Eles conheciam o Brasil e guardavam referências de nosso país. Assim, diferentes geografias se encontravam ao redor de uma mesma mesa. A hospitalidade dos Mabey permitiu que eu conhecesse a Inglaterra para além das salas de aula e dos programas turísticos. Descobri hábitos familiares, horários, tradições e outra maneira de organizar o cotidiano. Compreendi que a verdadeira riqueza de uma viagem está também nas pessoas que encontramos e na capacidade de transformar diferenças culturais em oportunidades de aproximação.

Até as refeições se converteram em descobertas. O café da manhã era farto e delicioso, praticamente uma celebração gastronômica para começar o dia. O almoço, em contrapartida, era pequeno, quase simbólico, enquanto o jantar recuperava a importância de uma refeição completa, acompanhada de conversas e convivência familiar. Para um brasileiro acostumado a outros hábitos, aquela organização parecia curiosa. Aprendi que a gastronomia revela muito sobre a identidade dos povos, seus ritmos e suas tradições. À mesa, além de alimentar o corpo, alimentava minha curiosidade e exercitava o inglês. A vida cotidiana demonstrava que viajar é também compreender que o mundo não toma café, almoça ou janta da mesma maneira.

Entre as situações mais engraçadas que vivi na casa dos Mabey, uma permanece inesquecível. Certa vez, o telefone tocou e resolvi atender. Do outro lado da linha, alguém começou a falar em inglês, mas não consegui compreender praticamente nada. Talvez pelo sotaque, pela velocidade da conversa ou simplesmente pela insegurança de um jovem estrangeiro, encontrei uma solução que me pareceu genial: comecei a responder, com absoluta convicção, “Of course! Of course!”. Repetia a expressão como se estivesse entendendo perfeitamente tudo, quando, na verdade, não fazia a menor ideia do assunto. O resultado foi uma repreensão por concordar com algo que sequer havia compreendido. Hoje rio da situação, mas ela me ensinou uma lição importante: a humildade de reconhecer nossas limitações vale mais do que a pretensão de demonstrar conhecimentos que ainda não possuímos. Um simples “Sorry, I don't understand” teria resolvido o problema. Algumas das melhores aulas de inglês que recebi aconteceram, portanto, longe da escola.

O intercâmbio incluía inúmeros passeios, visitas e atividades culturais que nos permitiam conhecer melhor a Inglaterra. A família Mabey complementava essa programação com outros passeios e encontros, inclusive visitas às casas de seus parentes. Dessa maneira, conheci não apenas os lugares apresentados aos estudantes estrangeiros, mas também a Inglaterra das relações familiares, das conversas espontâneas e das tradições preservadas no cotidiano. Cada experiência ampliava meu vocabulário e, principalmente, minha compreensão das diferenças humanas.

Um desses acontecimentos merece destaque especial: meu primeiro passeio a cavalo. Na ocasião, não tive coragem de confessar que jamais havia montado. Sentia vergonha diante dos outros estudantes que participavam do intercâmbio e, por orgulho juvenil, preferi fingir uma segurança que estava muito longe de possuir. O problema é que o cavalo não parecia disposto a colaborar com minha encenação. Em determinado momento, começou a galopar rapidamente, enquanto eu tentava, sem qualquer habilidade, manter o equilíbrio e controlar o animal. O desfecho foi tão inesperado quanto doloroso: acabei batendo com o nariz numa árvore! Imaginem a cena de um jovem brasileiro, vindo da Argélia para aperfeiçoar seu inglês, tentando demonstrar desenvoltura e terminando o passeio numa colisão nada diplomática com a natureza inglesa. Hoje consigo rir daquela aventura, embora naquele instante certamente não tenha encontrado a menor graça. Aprendi que reconhecer nossas limitações não representa fraqueza, mas inteligência. A juventude, entretanto, tem dessas coisas: às vezes preferimos enfrentar um cavalo em disparada a confessar que não sabemos montar.

Nem todas as aventuras aconteceram durante as atividades escolares ou os passeios culturais. Guardo lembranças particularmente divertidas das idas à discoteca local, onde a juventude inglesa se reunia para dançar, conversar e namorar. As jovens inglesas demonstravam grande entusiasmo por nós, estrangeiros, chegando praticamente a nos atacar, evidentemente no melhor sentido da palavra. A situação nem sempre despertava a mesma alegria nos rapazes ingleses, alguns dos quais pareciam considerar nossa presença uma invasão de território e demonstravam vontade de arrumar brigas. Entre músicas, olhares, paqueras, ciúmes e pequenas tensões, descobríamos também as regras não escritas das relações humanas. Hoje recordo esses episódios com humor e ternura. Afinal, a juventude não se constrói apenas com aulas e livros, mas também com aventuras, emoções e descobertas que permanecem na memória.

A convivência com a família Mabey e com os estudantes da grammar school reforçou uma convicção que me acompanha até hoje: o sentimento de pertencimento não depende exclusivamente do lugar onde nascemos. Podemos encontrar acolhimento em diferentes partes do planeta quando existe respeito, generosidade e disposição para compreender o outro. Na Argélia, eu já vivia a riqueza de uma sociedade africana marcada por diferentes influências culturais. No Lycée Descartes, aprendia a importância do pensamento crítico e do debate. Em Andover, descobria outra maneira de viver, estudar e conviver. Essas experiências se complementavam e ajudavam a construir minha visão democrática, plural e solidária do mundo. Minha defesa da diversidade não nasceu apenas das leituras ou dos discursos, mas da convivência concreta com pessoas de diferentes nacionalidades, crenças e tradições.

Quase cinquenta anos depois, durante uma de minhas viagens a Londres, resolvi retornar a Andover num passeio de um dia. Levava comigo a expectativa de reencontrar ruas, paisagens e lugares que permaneciam vivos em minha memória. Entretanto, a cidade havia mudado profundamente. Tive enorme dificuldade em reconhecer os locais que um dia fizeram parte de meu cotidiano. As transformações urbanas e a passagem do tempo pareciam ter redesenhado os cenários de minha juventude. Foi uma experiência emocionante e melancólica. Percebi que não era apenas Andover que havia mudado. Eu também já não era aquele jovem brasileiro que chegara da Argélia para aprender inglês. Quase meio século de viagens, encontros, perdas, conquistas e aprendizados separava aqueles dois momentos de minha existência.

Compreendi, naquele retorno, que existem lugares mais preservados dentro de nós do que na própria geografia. A Andover que reencontrei era diferente, mas aquela que conheci na juventude continuava intacta em minha memória, com a família Mabey, a escola, os passeios, as discotecas, os jantares, o telefonema incompreensível e até o cavalo que me levou diretamente ao encontro de uma árvore. Voltei a Londres com a sensação de ter visitado não apenas uma cidade, mas uma parte de minha própria história.

Hoje, depois de tantas viagens e de uma vida dedicada à educação e ao turismo, considero os intercâmbios instrumentos fundamentais para a formação das novas gerações. Defendo que essas oportunidades sejam ampliadas e democratizadas, alcançando também os jovens que não dispõem de recursos financeiros para conhecer outros países. O contato com diferentes culturas não pode permanecer como privilégio de poucos. Num mundo em que tantas vozes insistem em levantar muros, precisamos construir pontes. A educação deve libertar, aproximar e ensinar que a diversidade humana constitui uma riqueza, jamais uma ameaça.

Guardo profunda gratidão pela família Mabey, pelos professores, pelos colegas e por todas as pessoas que fizeram parte daquela experiência. Se pudesse conversar hoje com aquele jovem que saiu da Argélia para estudar numa pequena cidade inglesa, diria que aproveitasse cada instante, que não tivesse medo de cometer erros e, principalmente, que jamais perdesse a curiosidade diante da vida. Talvez também lhe recomendasse um pouco mais de prudência antes de subir num cavalo!

Fui a Andover para aprender melhor o inglês. Voltei com algo que nenhum dicionário seria capaz de traduzir integralmente: a certeza de que conhecer o outro é também uma maneira de conhecer a nós mesmos. O mundo não foi feito para ser observado à distância, mas para ser vivido, compartilhado e respeitado. As experiências que verdadeiramente nos transformam continuam conosco, iluminando nossas escolhas e alimentando nossa esperança num mundo mais humano, democrático e solidário.

Andover começou como uma aula de inglês e terminou como uma lição de vida. Uma lição que, felizmente, nunca terminou.





28/10/2026

Minha relação com a França e o francês


 Minha relação com a França e com a língua francesa começou ainda nos anos de estudo. Foi no Colégio São Bento que comecei a aprender francês, sem imaginar que aquele primeiro contato me acompanharia por tantos caminhos. Minha primeira viagem a Paris foi com minha mãe, Vera, e meu irmão, Tales, quando nos mudamos para morar na Argélia. A mudança abriu um novo capítulo da minha vida e estreitou meu contato com a língua e a cultura francesas. Em Argel, estudei no Lycée Descartes e na École Châteauneuf. O Lycée Descartes era uma verdadeira ONU: reunia alunos de diferentes partes do mundo e me permitiu conviver, desde cedo, com uma diversidade de experiências, culturas e maneiras de pensar. A leitura e a discussão eram incentivadas, e lembro também das peças teatrais de Brecht e Neruda em que atuei. Minha visão democrática do mundo tem raízes nessa convivência e na possibilidade de conhecer de perto tantas diferenças. Aprendi que ouvir, ler, discutir e dividir o mesmo espaço com pessoas de origens diversas alarga nossa maneira de compreender o mundo. Essa diversidade, que conheci na juventude, me acompanha até hoje.


Entre essas lembranças, Lignières, no Berry, na França, ocupa um lugar muito especial. Guardo com carinho as férias que passava naquela localidade, na bonita casa da família Galland, onde todos os familiares se reuniam. O pai da família, um grande professor e intelectual, nos levava para passeios pelos arredores. Também me recordo das conversas que tivemos com ele, sempre tão estimulantes, e da curiosidade com que eu observava os lugares e as pessoas ao meu redor. Foi ali que vivi outra lembrança marcante: Mina, uma de minhas primeiras namoradas. A memória daquele tempo reúne a descoberta da França e as descobertas próprias da juventude. Quando penso em Lignières, não me vêm à lembrança apenas uma casa ou uma paisagem, mas também o convívio, as conversas, os afetos e a sensação de estar vivendo uma etapa importante da vida.

Mais tarde, no Porto, formei-me como professor de francês. Essa escolha deu um novo sentido à relação que eu já tinha com a língua: o francês passou a fazer parte também da minha trajetória profissional e da maneira como eu podia compartilhar conhecimentos com outras pessoas. Guardei o francês como uma língua materna e o domino até hoje. Sempre que posso, leio em francês, vejo filmes nesse idioma e me encanto com os canais de televisão franceses que consigo acompanhar no Brasil. No Institut Français, lembro com carinho de uma professora especial, Madame Poisson Coutinho. Uma vez, viajei de carro do Porto à França com ela, seu marido e seu filho. Essa viagem permanece entre minhas recordações queridas, porque reuniu a língua, a amizade e a possibilidade de atravessar paisagens e lugares acompanhado de pessoas que fizeram parte da minha formação. Ao longo dos anos, as inúmeras viagens a Paris ampliaram ainda mais minha relação com o país. De Paris, parti para conhecer outras regiões e me maravilhar com a diversidade natural e cultural francesa. Também me encantavam os diferentes sotaques, que revelavam a riqueza e a variedade de cada região.

Alguns encontros também se tornaram parte inseparável dessa história. Foi por intermédio de Leila, sobrinha de Madame Gherab, que conheci Madame Gherab e sua filha Laurence. Dessa aproximação nasceu uma amizade que guardo com carinho e que ocupa um lugar especial entre minhas lembranças francesas. Ao recordar essas pessoas e os lugares por onde passei, percebo que minha relação com a França foi sendo construída nas salas de aula, nas viagens, nas experiências culturais e nos vínculos afetivos. O Colégio São Bento, Argel, o Lycée Descartes, a École Châteauneuf, Lignières, no Berry, o Porto, Paris e as muitas regiões francesas compõem uma geografia de aprendizado, descoberta e amizade. Em cada etapa, o francês esteve presente de uma maneira própria: primeiro como aprendizado, depois como instrumento de formação e trabalho, e sempre como uma ponte para pessoas, lugares e culturas. Hoje, vejo essa trajetória como uma narrativa que continua comigo. A França deixou de ser apenas um país distante para se tornar parte da minha história e da diversidade que aprendi a valorizar.

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