17/09/2026

Percepções das viagens internacionais

 Viajar pelo mundo nunca foi, para mim, simplesmente atravessar fronteiras. É atravessar a nós mesmos. Depois de décadas percorrendo o planeta, conhecendo mais de 200 países e 10 mil cidades, compreendi que as grandes viagens não se medem apenas em quilômetros, carimbos no passaporte ou fotografias acumuladas, mas naquilo que permanece dentro de nós. Algumas lembranças se desfazem com o tempo; outras continuam surpreendentemente vivas: um cheiro, um rosto, uma estação ferroviária, o silêncio de um deserto, a agitação de uma rua, uma conversa inesperada ou simplesmente a sensação de estar muito longe de casa e, ainda assim, pertencer um pouco ao mundo.

Vivi situações que, quando comecei a viajar, dificilmente imaginaria possíveis. Tomar banho dentro de um avião da Emirates, no trecho entre Dubai e Kuala Lumpur, a milhares de metros de altitude, foi uma delas. Mais do que o luxo ou a extravagância da experiência, impressionou-me perceber até onde a tecnologia havia levado nossa relação com as distâncias. Em pleno céu, cercado por um conforto que décadas antes pareceria ficção, pensei em quantas maneiras diferentes existem de viajar e em como o turismo também revela as transformações de uma época.

Em outra ocasião, abandonei a velocidade dos aviões pelo ritmo quase hipnótico dos trilhos. Fazer de trem o percurso entre Moscou e Beijing foi recuperar a dimensão física da viagem. No avião atravessamos territórios quase sem percebê-los; no trem, a geografia desfila diante da janela. Paisagens se sucedem, rostos e costumes mudam, as horas adquirem outro significado e a distância deixa de ser obstáculo para se tornar parte fundamental da experiência. Há algo profundamente humano em observar o mundo passar por uma janela enquanto nós mesmos vamos mudando silenciosamente dentro do vagão.

Pyongyang, na Coreia do Norte, provocou sensações completamente diferentes. Estar em um lugar sobre o qual tanto se fala e que relativamente poucos estrangeiros conhecem fez-me compreender também os limites do olhar de quem viaja. Observamos aquilo a que temos acesso, mas existem sempre camadas que uma visita não consegue revelar. Pyongyang me ensinou a observar mais e concluir menos. Nem toda viagem precisa produzir respostas. Algumas das mais importantes são justamente aquelas que nos devolvem carregados de perguntas.

A Índia me fascinou e me perturbou por suas imensas contradições sociais. Luxo e miséria conviviam diante dos meus olhos, algumas vezes separados por poucos metros. O trânsito caótico parecia desafiar qualquer lógica, os metrôs superlotados mostravam a intensidade quase vertiginosa da vida cotidiana e, no meio de tudo isso, encontrei um povo de uma gentileza única. Recordo-me de oferecer uma gorjeta de apenas um dólar e perceber uma gratidão que fazia aquele pequeno valor parecer uma fortuna. Para mim, naquele instante, um dólar quase nada representava; para quem o recebia, parecia significar muito. Aquele gesto simples me obrigou a pensar sobre desigualdade, privilégios e sobre como o valor das coisas muda radicalmente dependendo do lugar que ocupamos no mundo.

A África do Sul, por sua vez, deixou-me perplexo. Um país de dimensões continentais e extraordinária beleza, onde o fim jurídico do apartheid não foi suficiente para apagar rapidamente décadas de separação. Percebi ambientes, comunidades e realidades educacionais ainda profundamente marcados pelas desigualdades raciais e sociais herdadas daquele sistema. As leis podem mudar em determinado momento histórico; as cicatrizes humanas necessitam de gerações para desaparecer.

Essa experiência ganhou para mim uma dimensão ainda maior porque tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Nelson Mandela. Há encontros que deixam de pertencer apenas à nossa biografia para tocar a própria História. Visitar posteriormente o lugar onde Mandela esteve preso tornou tudo ainda mais impactante. A prisão deixou de ser uma informação de livros e documentários para ganhar paredes, espaços e silêncios. Pensei no tempo retirado de uma vida e na capacidade extraordinária de um homem de sair daquele universo sem transformar a liberdade simplesmente em vingança.

Até nos deslocamentos pela África do Sul, inclusive em voos da South African Airways, chamavam-me a atenção as distâncias culturais existentes dentro de uma mesma nacionalidade. Ouvia brancos conversando em africâner e negros falando diferentes línguas africanas e percebia universos culturais compartilhando o mesmo território, mas carregando referências históricas e experiências sociais muito distintas. Uma viagem não nos concede autoridade para explicar toda a complexidade de um país, mas nos oferece algo talvez mais importante: a possibilidade de perceber que a realidade é sempre muito mais complexa do que nossos preconceitos e certezas.

Marrakech me conduziu por outro caminho. Hospedar-me em um riad foi entrar um pouco na intimidade da cidade. Por trás de fachadas discretas, encontrei pátios, detalhes arquitetônicos, aromas e uma atmosfera quase protegida da agitação das ruas. Marrakech precisa ser percorrida, sentida e até um pouco decifrada. Seus mercados, suas cores, seus cheiros e suas ruelas convidam a abandonar por algumas horas nossa obsessão de saber exatamente para onde estamos indo. Há momentos em que se perder também é viajar.

Em Amsterdã, outra contradição me encantou. Caminhar pelo bairro da Luz Vermelha, com suas damas da noite nas vitrines iluminadas, significava entrar numa atmosfera provocadora que convivia quase naturalmente com a delicadeza dos canais. E foi justamente sobre aquelas águas que fiquei hospedado, em um barco. Ao acordar, em vez do corredor convencional de um hotel, havia a água, as pontes, as bicicletas e aquele movimento tão particular da cidade. À noite, bastavam alguns passos para reencontrar as luzes e a efervescência. Amsterdã parecia demonstrar que uma cidade pode ser simultaneamente irreverente e romântica, provocadora e tranquila.

Budapeste permanece na minha memória pela maneira quase poética como sua geografia organiza a cidade. De um lado, Buda; do outro, Peste. Entre as duas, o Danúbio e suas pontes, que não apenas unem territórios, mas parecem costurar diferentes personalidades urbanas. Atravessá-las era quase mudar de cenário sem abandonar a mesma cidade. Lembro-me de seus deliciosos restaurantes, da gastronomia generosa que convida a permanecer à mesa e dos tradicionais banhos públicos, onde as águas termais transformam um costume cotidiano em experiência cultural. Budapeste não é apenas para ser contemplada: precisa ser atravessada, saboreada e mergulhada.

A Argélia ocupa um lugar especial em minhas lembranças. O deserto possui uma linguagem que dispensa palavras. Ghardaïa, com sua arquitetura e sua extraordinária relação com a paisagem, permanece como uma imagem poderosa, assim como Bou Saâda e os caminhos que me permitiram conhecer uma Argélia muito além das grandes cidades. No deserto, o silêncio parece adquirir matéria. Diante daquela imensidão, somos obrigados a reconhecer nossa pequenez. Curiosamente, foi em alguns desses espaços aparentemente vazios que senti o mundo mais cheio de significado.

Quando reúno essas lembranças, percebo que elas parecem não ter qualquer relação entre si: um banho em pleno voo entre Dubai e Kuala Lumpur; uma longa viagem ferroviária entre Moscou e Beijing; os enigmas de Pyongyang; a intensidade humana da Índia; Mandela e as cicatrizes da África do Sul; um riad em Marrakech; um barco nos canais de Amsterdã; as águas termais de Budapeste; o silêncio do deserto argelino. Mas talvez seja justamente essa diversidade que explique minha paixão por viajar. O mundo não foi feito para ser uniforme.

Aprendi que o planeta não cabe nos mapas. Eles mostram fronteiras, capitais, mares e distâncias, mas são incapazes de registrar aquilo que verdadeiramente trazemos conosco. Não registram o olhar de alguém recebendo uma pequena gorjeta na Índia, a emoção de estar diante de um homem como Mandela, o balanço de um barco numa manhã em Amsterdã, a água quente de um banho em Budapeste, uma janela de trem atravessando territórios imensos ou o silêncio diante de uma paisagem argelina.

Talvez por isso eu tenha fotografado tanto ao longo da vida. As milhares de imagens que acumulei são uma tentativa quase desesperada de impedir que o tempo apague aquilo que meus olhos viram. Mas descobri que minhas melhores fotografias nem sempre estão nos arquivos. Algumas permanecem exclusivamente dentro de mim. São imagens afetivas que nenhuma câmera conseguiria reproduzir.

Vejo, entretanto, com inquietação determinada maneira contemporânea de viajar. Fotografamos antes de olhar, publicamos antes de sentir e corremos para o próximo ponto turístico antes de compreender aquele onde estamos. Algumas vezes parece mais importante demonstrar que estivemos em determinado lugar do que verdadeiramente estar nele. Transformamos destinos em cenários, pessoas em figurantes e experiências em postagens. Na ansiedade de mostrar tudo, podemos acabar vivendo muito pouco.

Viajar exige curiosidade, mas exige sobretudo disponibilidade interior. É preciso algumas vezes caminhar sem destino, utilizar o transporte público, sentar num café, conversar com quem vive ali, experimentar uma comida desconhecida, entrar numa rua que não estava no roteiro e aceitar inclusive o prazer de se perder. Os grandes monumentos impressionam, mas frequentemente são os pequenos acontecimentos que sobrevivem.

Não romantizo o mundo. Viajar também me mostrou desigualdades brutais, pobreza, intolerância, conflitos e contradições que nenhum cartão-postal consegue esconder. Vi luxo convivendo com miséria e tecnologia extraordinária existindo ao lado de carências elementares. O viajante consciente não deveria fechar os olhos para aquilo que incomoda. Conhecer um destino não significa apenas consumir sua beleza; significa tentar compreender, ainda que imperfeitamente, sua realidade.

Depois de tantas fronteiras atravessadas, cheguei a uma conclusão aparentemente contraditória: quanto mais conheço o mundo, maior ele fica. Cada país revela outro universo, cada cultura destrói uma certeza, cada pessoa encontrada pelo caminho acrescenta uma história e cada viagem demonstra o tamanho de nossa ignorância diante da extraordinária diversidade humana. Continuo querendo viajar, entrando em aviões, trens, barcos e estradas com uma curiosidade quase infantil, ouvindo idiomas que não compreendo, experimentando sabores desconhecidos, atravessando cidades e desertos, observando pessoas, fotografando paisagens e descobrindo outras maneiras de viver. Porque viajar pelo mundo nunca foi, para mim, uma competição para saber quantos países consegui conhecer: os carimbos desaparecem, os passaportes vencem, as fotografias envelhecem e até nossa memória começa lentamente a selecionar aquilo que deseja conservar. O que permanece é aquilo que cada lugar conseguiu transformar dentro de nós. Viajar pelo mundo é permitir que o mundo viaje por dentro da gente. E talvez seja por isso que continuo partindo: não para descobrir quantos países ainda posso conhecer, mas quantos mundos ainda sou capaz de sentir.


14/09/2026

Rock in Rio-Último dia-Eu fui

 Fui ao último dia do Rock in Rio disposto a viver o festival, mas também, inevitavelmente, a observá-lo com os olhos de quem há décadas trabalha com turismo, hospitalidade e grandes eventos. A primeira impressão foi excelente: acesso rápido, check-in eficiente e entrada organizada. A Cidade do Rock impressiona pela tecnologia, cenografia e capacidade de criar experiências. O espetáculo Ecco, combinando luz, movimento e música, confirma que o Rock in Rio deixou há muito de ser apenas uma sucessão de shows para se transformar numa poderosa indústria de entretenimento.

A programação reuniu nomes de forte apelo popular. Ivete Sangalo, presença recorrente e quase uma tradição do festival, mostrou novamente seu carisma e domínio das grandes plateias. Talvez justamente por figurar em tantas edições, senti falta de alguma novidade capaz de romper uma fórmula já conhecida. A Banda Calypso trouxe a força de seu repertório popular e reafirmou a diversidade musical de um festival que há muito ultrapassou as fronteiras do rock. No cenário internacional, minha agradável surpresa foi Halsey, artista que eu pouco conhecia. Sua voz, presença de palco e performance me conquistaram. Um grande festival também deve servir para isso: permitir descobertas.

Mas foi no Espaço Favela que encontrei a alma da noite. Dennis DJ fez o público dançar — e eu dancei como há muito não dançava em um evento. Havia ali uma energia espontânea, uma mistura de gerações, ritmos e histórias profundamente carioca. A homenagem a Mr. Catra acrescentou memória e identidade à apresentação. E saí dali com uma provocação: por que o Espaço Favela ainda não é um dos palcos principais do Rock in Rio? Não como concessão ou gesto protocolar de inclusão, mas porque seus artistas, sua música e seu público já conquistaram centralidade na cultura brasileira.

Nem tudo, entretanto, esteve à altura do espetáculo. A queima de fogos das 21h30, devo confessar, decepcionou. Faltaram criatividade, surpresa e emoção. Para uma marca que fez do impacto visual uma de suas assinaturas, esperava mais. No Rock in Rio, não basta iluminar o céu; é preciso provocar encantamento. Nas lojas oficiais encontrei boa diversidade de produtos e uma competente exploração da marca, mas preços elevados e dificuldade para encontrar peças no tamanho GG. Parece detalhe, mas não é. Se o festival celebra diversidade, ela também deve chegar às araras.

A chuva revelou uma fragilidade mais preocupante. Poças d'água e dificuldades de circulação não combinam com um evento dessa envergadura. Chuva no Rio de Janeiro não é surpresa. Drenagem, pavimentação e circulação precisam receber a mesma atenção dedicada aos telões e efeitos especiais. Não se pode ser extraordinário no palco e improvisado no chão. No Gourmet Square, a concentração de pessoas tornou o acesso quase impossível em determinados momentos, enquanto muitos visitantes acabavam sentados no chão. Uma experiência gastronômica diferenciada exige também conforto, circulação, assentos e organização.

Em contrapartida, faço questão de elogiar os banheiros. Mesmo submetidos a uso intenso durante horas, encontrei-os sempre limpos e bem cuidados. Em uma operação desse porte, isso revela planejamento, equipes eficientes e atenção ao público. É um daqueles detalhes que parecem elementares até encontrarmos um evento em que não funcionam.

A sinalização e a informação na saída, porém, precisam melhorar. Percebi desinformação inclusive entre alguns agentes da Guarda Municipal presentes. Não questiono a importância de seu trabalho, mas profissionais em contato direto com milhares de visitantes deveriam receber previamente orientações sobre acessos, saídas, transportes e pontos de referência. Quem veste um uniforme diante de um visitante torna-se também um ponto de informação da cidade. Orientar, em um megaevento, é acolher e também proteger.

Essa talvez seja a contradição que mais me chamou a atenção: o Rock in Rio domina o extraordinário, mas ainda tropeça em aspectos básicos. Faz o público olhar para cima diante de palcos monumentais, mas nem sempre cuida com a mesma precisão do chão onde ele pisa, do lugar onde se senta ou da informação de que precisa para ir embora. A poça, a falta de assento, o acesso congestionado e a sinalização insuficiente também fazem parte do espetáculo — embora ninguém tenha comprado ingresso para vê-los.

Nada disso diminui a importância do Rock in Rio. O festival movimenta turismo, hotelaria, gastronomia, transportes e serviços, gera empregos e projeta o Rio de Janeiro para o mundo. Justamente por sua força, pode e deve ser cobrado. Um megaevento não termina no último acorde: termina quando seu público consegue voltar para casa com conforto, informação e segurança.

Eu fui. Caminhei, observei, enfrentei a chuva, desviei das poças, visitei as lojas, assisti aos fogos, descobri Halsey e procurei a saída. Mas, sobretudo, dancei. Dancei com Dennis DJ no Espaço Favela e ali encontrei meu melhor momento. Entre tanta tecnologia, cenografia e investimento, foi justamente naquele espaço que encontrei algo que dinheiro algum consegue fabricar: alma.

Para o próximo Rock in Rio, deixo uma provocação: façam do Espaço Favela um dos grandes palcos do festival. Sua música e seu público já conquistaram esse lugar. Se o Rock in Rio nasceu para derrubar fronteiras pela música, talvez esteja na hora de derrubar também algumas fronteiras dentro da própria Cidade do Rock. Porque a grandeza de um festival não está apenas no tamanho de seus palcos, mas na capacidade de emocionar, acolher e fazer com que o público queira voltar.

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