02/11/2026

Minha origem suiça me acompanha

 Há raízes que o tempo não consegue apagar, distâncias que não enfraquecem os sentimentos e heranças que ultrapassam os limites da geografia. Minha origem suíça é uma dessas presenças silenciosas e permanentes que caminham comigo, alimentando minha identidade, minhas lembranças e meu sentimento de pertencimento. Não se trata apenas de um sobrenome, de uma árvore genealógica ou de documentos preservados pela família. Trata-se de uma história de coragem, de travessias, de sonhos e de pessoas que tiveram a ousadia de atravessar o oceano para construir uma nova existência no Brasil.

Minha família veio de Neuchâtel, na Suíça de língua francesa, uma região de paisagens encantadoras, lagos, montanhas e tradições culturais que fazem parte de uma história que considero também minha. Imagino meus antepassados deixando aquela terra, despedindo-se de seus familiares, dos lugares conhecidos e de uma vida construída ao longo de gerações. Toda imigração carrega uma mistura de esperança e saudade. É preciso coragem para abandonar o familiar e acreditar no desconhecido. Aqueles que partiram de Neuchâtel trouxeram muito mais do que malas e documentos. Transportaram valores, conhecimentos, tradições, a língua francesa e a disposição para enfrentar os desafios de um país distante.

Santa Catarina tornou-se o cenário brasileiro dessa trajetória. Foi ali que a família Boiteux criou raízes e passou a participar da construção da sociedade catarinense. O que começou como uma história de imigração transformou-se, com o passar das gerações, em uma presença reconhecida na memória regional. O município de José Boiteux recebeu seu nome em homenagem ao meu tio-avô José Boiteux, renomado jurista catarinense, cuja trajetória deixou marcas na história do estado. Há também a referência histórica a Boiteuxburgo, escolas que homenageiam meu avô e minha avó e uma estátua na praça principal de Florianópolis. São marcas que me emocionam, não pelo eventual prestígio de um sobrenome, mas pela possibilidade de perceber que a trajetória de uma família pode ultrapassar os limites da existência individual e integrar a memória coletiva de um povo.

A homenagem ao meu tio-avô José Boiteux possui um significado especial. Poucas manifestações de reconhecimento são tão duradouras quanto a presença de um nome na geografia de um estado. Cidades são organismos vivos, lugares onde pessoas nascem, trabalham, estudam, constroem famílias e alimentam esperanças. Saber que um município catarinense carrega o nome de um integrante de minha família desperta em mim uma emoção que ultrapassa qualquer sentimento de orgulho pessoal. Representa a permanência de uma memória e o reconhecimento de uma trajetória ligada à vida pública e ao universo jurídico de Santa Catarina.

Entre os personagens dessa história familiar, ocupa também um lugar de especial importância meu avô, o almirante Lucas Alexandre Boiteux, que se tornou um dos grandes historiadores de Santa Catarina. Sua trajetória representa uma contribuição que ultrapassa os vínculos familiares. Ao dedicar-se ao estudo e à preservação da história catarinense, ajudou a valorizar acontecimentos, personagens e experiências fundamentais para a compreensão da identidade regional. A história não é apenas uma sucessão de datas e fatos. É a memória de uma sociedade, o registro de suas transformações e a possibilidade de compreender o presente através das experiências do passado. Meu avô compreendeu a importância dessa missão e deixou uma contribuição intelectual que continua despertando respeito e admiração.

Penso frequentemente na responsabilidade que acompanha o legado de alguém que dedicou parte tão significativa de sua existência à preservação da memória. Como professor, escritor e pesquisador, reconheço o valor desse compromisso. Talvez exista uma ligação afetiva entre a paixão de meu avô pela história e minha própria necessidade de escrever, registrar experiências, fotografar paisagens, conhecer povos e compartilhar conhecimentos. Não pretendo estabelecer comparações entre trajetórias distintas, mas sinto que a curiosidade intelectual e o desejo de compreender o mundo constituem uma bela herança.

Ao longo das gerações, a família Boiteux uniu-se às famílias Demaria e Cavalazzi, ampliando uma história construída através de encontros, casamentos, afetos e diferentes tradições. Essas uniões familiares representam muito mais do que a continuidade de sobrenomes. Revelam como as identidades se transformam, como diferentes origens se complementam e como cada geração acrescenta novos capítulos à trajetória daqueles que vieram antes. Carrego comigo essa herança plural, formada por histórias que se encontraram e passaram a constituir uma mesma memória afetiva.

As escolas que levam os nomes de meus avós possuem, para mim, um significado particularmente especial. Dediquei grande parte da minha vida à educação e sempre acreditei que o conhecimento é um dos mais importantes instrumentos de transformação social. Saber que nomes da minha família estão associados a instituições de ensino desperta um sentimento de orgulho e responsabilidade. Uma escola não é simplesmente um edifício. É um espaço onde crianças descobrem suas possibilidades, professores compartilham conhecimentos e a sociedade prepara seu próprio futuro. Não consigo imaginar homenagem mais bonita do que permanecer simbolicamente presente em um lugar dedicado à formação humana.

A estátua em Florianópolis também me faz refletir sobre a maneira como preservamos nossas histórias. Os monumentos assistem silenciosamente à passagem do tempo. Pessoas caminham diante deles, crianças brincam nas proximidades, turistas fazem fotografias e a vida continua. Poucos imaginam quantas experiências, dificuldades, sonhos e realizações existem por trás de uma homenagem pública. Para mim, aquela presença representa uma ligação afetiva entre gerações, uma ponte entre os que chegaram ao Brasil e aqueles que continuam escrevendo novos capítulos dessa história.

As inúmeras vezes em que estive passeando pela Suíça, particularmente em Neuchâtel e Lausanne, despertaram em mim uma saudade contida, difícil de explicar e ainda mais difícil de silenciar. Caminhar por aquelas cidades, contemplar seus lagos, observar a elegância discreta de suas construções e ouvir o francês nas ruas provocavam uma emoção que ultrapassava o simples encantamento de um viajante. Era como se uma parte desconhecida de minha própria história se revelasse diante dos meus olhos. Sentia saudade de uma terra onde não nasci, de tempos que não vivi e de pessoas que não conheci. Uma saudade herdada, talvez, que atravessou o oceano e encontrou abrigo em minha sensibilidade.

E como explicar esse sentimento senão através de uma palavra tão profundamente portuguesa: saudade? Curiosamente, foi a língua portuguesa, e não a francesa de meus antepassados, que me ofereceu a expressão mais íntima para traduzir aquela emoção. A palavra parecia reunir duas culturas que habitam minha existência: a herança suíça que me acompanha e a alma brasileira que me define. Em Neuchâtel e Lausanne, descobri que a saudade também pode nascer do reencontro com aquilo que nunca conhecemos plenamente. Era uma nostalgia sem tristeza, uma melancolia delicada, uma emoção contida que me fazia compreender que pertencemos não apenas aos lugares onde vivemos, mas também àqueles que habitam nossa memória familiar.

Minha ligação com Neuchâtel possui ainda uma dimensão linguística e cultural que considero fascinante. O francês entrou cedo em minha vida, quando comecei a estudá-lo no Colégio São Bento, no Rio de Janeiro. Posteriormente, a língua ganhou uma importância ainda maior durante minha permanência na Argélia, onde estudei no Lycée Descartes, e em Portugal, onde aprofundei minha formação no Institut Français, no Porto. O francês tornou-se para mim uma segunda língua materna, uma forma de pensar, sentir e interpretar o mundo. Até hoje procuro ler em francês, acompanhar programas de televisão, assistir a filmes e preservar uma relação afetiva com esse universo cultural. Gosto de imaginar que essa paixão também representa um reencontro, ainda que simbólico, com minhas raízes familiares em Neuchâtel.

A França, país que visitei inúmeras vezes e pelo qual nutro um carinho especial, acabou ampliando essa ligação com a cultura francófona. Paris, as pequenas cidades, as diferentes regiões, os sotaques e as manifestações culturais francesas sempre despertaram em mim um encantamento particular. Minhas experiências em Lignières, no Berry, as amizades construídas e os anos de convivência com a língua francesa contribuíram para formar minha personalidade. Existe uma continuidade emocional entre a Suíça francófona de meus antepassados e esse universo cultural que escolhi cultivar ao longo da vida.

Minha admiração pela Suíça também está relacionada à capacidade de reunir diferentes línguas e tradições em um mesmo país. O francês, o alemão, o italiano e o romanche fazem parte de uma realidade nacional marcada pela pluralidade. Essa característica dialoga profundamente com minha maneira de compreender a sociedade. Sempre defendi a diversidade, a democracia, o respeito às diferenças e a convivência entre pessoas de origens distintas. Minhas experiências internacionais, especialmente durante a juventude, ensinaram-me que nenhuma cultura possui o monopólio da verdade e que o conhecimento nasce frequentemente do encontro entre diferentes maneiras de pensar.

Ao longo de minhas viagens pelo mundo, compreendi que nossas origens não devem servir para erguer fronteiras emocionais ou alimentar sentimentos de superioridade. Pelo contrário, precisam ampliar nossa capacidade de compreender o outro. A história dos imigrantes é também uma história de adaptação, sofrimento, trabalho e esperança. Quantas famílias atravessaram oceanos em busca de oportunidades? Quantas precisaram aprender novos idiomas, enfrentar preconceitos e reconstruir suas vidas? Pensar nos meus antepassados suíços me aproxima dessas experiências humanas e reforça minha convicção de que a solidariedade deve ser um princípio universal.

Sou profundamente brasileiro. Amo meu país, sua diversidade cultural, suas paisagens, suas manifestações populares e sua extraordinária capacidade de reinventar esperanças. Minha ascendência suíça não diminui esse sentimento de brasilidade. Ela o enriquece. Santa Catarina representa um capítulo essencial da minha história familiar, enquanto o Rio de Janeiro ocupa um lugar definitivo em minha vida afetiva, intelectual e profissional. Entre Neuchâtel, Lausanne, Santa Catarina e o Rio existe uma geografia sentimental que nenhuma distância consegue desfazer.

Penso frequentemente naquilo que meus antepassados imaginariam se pudessem acompanhar a trajetória de seus descendentes. Talvez se surpreendessem ao descobrir que aquele movimento inicial de atravessar fronteiras encontraria continuidade em alguém que dedicou décadas ao turismo, à educação, à escrita, à fotografia e ao conhecimento de diferentes culturas. Não sei se a paixão pelas viagens pode ser transmitida através das gerações, mas gosto de imaginar que a coragem de partir e a curiosidade diante do desconhecido encontraram em mim uma nova expressão.

Entretanto, não acredito que um sobrenome, por mais reconhecido que seja, possa substituir o mérito pessoal. A história de nossos antepassados deve inspirar, jamais aprisionar. O verdadeiro valor de uma herança não está nos monumentos, nos nomes de municípios ou nas homenagens públicas, embora tudo isso tenha uma importância afetiva inegável. Está na capacidade de transformar a memória recebida em atitudes positivas, compromissos sociais e contribuições concretas para um mundo melhor.

A família Boiteux deixou marcas em Santa Catarina, e essa realidade me emociona. Contudo, considero que cada geração possui a responsabilidade de construir sua própria trajetória. Procurei fazer isso através do magistério, do turismo, da comunicação, da cultura e da defesa permanente de uma sociedade mais democrática e solidária. Não pretendo viver das realizações daqueles que me antecederam. Desejo honrá-los através daquilo que sou capaz de realizar no presente.

Hoje, quando penso em Neuchâtel, não vejo apenas suas paisagens, seu lago e suas construções históricas. Vejo o ponto de partida de uma aventura familiar que atravessou o Atlântico e encontrou em Santa Catarina uma nova possibilidade de existência. Quando penso no município de José Boiteux, nas referências a Boiteuxburgo, nas escolas e no monumento de Florianópolis, reconheço manifestações de uma memória que resistiu ao tempo. Quando recordo meu avô Lucas Alexandre Boiteux e meu tio-avô José Boiteux, reconheço a importância de preservar a história para que as próximas gerações possam compreender suas origens. E, quando escuto a língua francesa, sinto que existe uma ligação afetiva entre minha formação cultural e aquela terra distante de onde vieram meus antepassados.

Minha origem suíça me acompanha, mas não me prende ao passado. Ela me oferece referências para compreender o presente e continuar acreditando no futuro. Carrego comigo a coragem daqueles que partiram, a memória daqueles que ajudaram a construir Santa Catarina e o compromisso de continuar defendendo valores que considero indispensáveis à convivência humana.

A vida me ensinou que pertencemos a muitos lugares. Somos feitos das terras onde nascemos, das cidades onde vivemos, das pessoas que amamos, dos idiomas que aprendemos e das experiências que transformam nossa maneira de enxergar o mundo. Minhas raízes estão também em Neuchâtel, minha história familiar floresceu em Santa Catarina, encontrou novos caminhos através das famílias Demaria e Cavalazzi e minha vida encontrou no Rio de Janeiro um espaço privilegiado de realização. Nenhuma dessas dimensões se exclui. Todas se complementam.

As raízes mais profundas não são aquelas que nos impedem de partir. São aquelas que nos permitem caminhar pelo mundo sem esquecer de onde viemos.

E assim minha origem suíça continuará me acompanhando, não como um símbolo de distinção, mas como uma herança de afeto, cultura, memória e responsabilidade. Porque a verdadeira grandeza de uma família não está apenas na história que deixou escrita, mas na humanidade que seus descendentes conseguem acrescentar ao mundo.

De Neuchâtel a Santa Catarina, de Santa Catarina ao Rio de Janeiro e do Rio para tantos lugares do planeta, sigo carregando a certeza de que nossas origens nos oferecem raízes, enquanto nossos sonhos nos dão asas.

Neuchâtel

Neuchâtel


Jose Arthur Boiteux

Lucas Alexandre Boiteux


01/11/2026

O intercâbio em Andover:uma experiência linguística e cultural

O intercâmbio em Andover:uma experiência linguística e cultural

 Existem viagens que fazemos para conhecer lugares e outras que realizamos, sem perceber, para descobrir um pouco mais de nós mesmos. Algumas permanecem nos álbuns de fotografias; outras sobrevivem na memória como capítulos de uma história que o tempo não consegue apagar. Minha experiência de intercâmbio em Andover, na Inglaterra, pertence a essa segunda categoria. Foi uma viagem que começou com o desejo de aperfeiçoar meu inglês e terminou como uma extraordinária lição de convivência, diversidade cultural, independência e respeito às diferenças. Naquela época, eu morava na Argélia e estudava no Lycée Descartes, em Argel, uma instituição francesa que representava uma verdadeira Organização das Nações Unidas em miniatura. Estudantes de diferentes nacionalidades, culturas e crenças compartilhavam salas de aula, ideias e inquietações. Foi naquele ambiente cosmopolita que aprendi a importância do pensamento crítico, da leitura, do diálogo e da pluralidade. A educação, compreendi desde cedo, não deveria apenas transmitir conhecimentos, mas despertar consciências e abrir janelas para o mundo.

A oportunidade de realizar um intercâmbio na Inglaterra surgiu como uma possibilidade de aprofundar meus conhecimentos da língua inglesa e conhecer uma sociedade diferente daquela em que vivia. Meu destino foi Andover, uma cidade do condado de Hampshire, onde frequentei uma grammar school. A experiência escolar britânica apresentava métodos, hábitos e relações distintos dos que conhecia no Lycée Descartes. O desafio não consistia apenas em acompanhar as aulas, mas compreender sotaques, expressões e maneiras de pensar. Descobri que aprender uma língua estrangeira significa muito mais do que memorizar regras gramaticais. Significa penetrar no universo cultural de outro povo, compreender seus códigos e reconhecer que existem inúmeras maneiras de interpretar a vida. Cada conversa representava uma conquista e cada dificuldade superada aumentava minha confiança. Era a juventude descobrindo que o conhecimento não conhece fronteiras.

Uma das experiências mais enriquecedoras daquele período foi a convivência com a família Mabey, que me recebeu em sua casa com generosidade e carinho. Tratava-se de uma família britânica que já havia morado no Brasil, circunstância que estabeleceu imediatamente uma ponte afetiva entre nossas histórias. Eu chegava da Argélia, trazendo minhas raízes brasileiras e uma formação influenciada pela cultura francesa. Eles conheciam o Brasil e guardavam referências de nosso país. Assim, diferentes geografias se encontravam ao redor de uma mesma mesa. A hospitalidade dos Mabey permitiu que eu conhecesse a Inglaterra para além das salas de aula e dos programas turísticos. Descobri hábitos familiares, horários, tradições e outra maneira de organizar o cotidiano. Compreendi que a verdadeira riqueza de uma viagem está também nas pessoas que encontramos e na capacidade de transformar diferenças culturais em oportunidades de aproximação.

Até as refeições se converteram em descobertas. O café da manhã era farto e delicioso, praticamente uma celebração gastronômica para começar o dia. O almoço, em contrapartida, era pequeno, quase simbólico, enquanto o jantar recuperava a importância de uma refeição completa, acompanhada de conversas e convivência familiar. Para um brasileiro acostumado a outros hábitos, aquela organização parecia curiosa. Aprendi que a gastronomia revela muito sobre a identidade dos povos, seus ritmos e suas tradições. À mesa, além de alimentar o corpo, alimentava minha curiosidade e exercitava o inglês. A vida cotidiana demonstrava que viajar é também compreender que o mundo não toma café, almoça ou janta da mesma maneira.

Entre as situações mais engraçadas que vivi na casa dos Mabey, uma permanece inesquecível. Certa vez, o telefone tocou e resolvi atender. Do outro lado da linha, alguém começou a falar em inglês, mas não consegui compreender praticamente nada. Talvez pelo sotaque, pela velocidade da conversa ou simplesmente pela insegurança de um jovem estrangeiro, encontrei uma solução que me pareceu genial: comecei a responder, com absoluta convicção, “Of course! Of course!”. Repetia a expressão como se estivesse entendendo perfeitamente tudo, quando, na verdade, não fazia a menor ideia do assunto. O resultado foi uma repreensão por concordar com algo que sequer havia compreendido. Hoje rio da situação, mas ela me ensinou uma lição importante: a humildade de reconhecer nossas limitações vale mais do que a pretensão de demonstrar conhecimentos que ainda não possuímos. Um simples “Sorry, I don't understand” teria resolvido o problema. Algumas das melhores aulas de inglês que recebi aconteceram, portanto, longe da escola.

O intercâmbio incluía inúmeros passeios, visitas e atividades culturais que nos permitiam conhecer melhor a Inglaterra. A família Mabey complementava essa programação com outros passeios e encontros, inclusive visitas às casas de seus parentes. Dessa maneira, conheci não apenas os lugares apresentados aos estudantes estrangeiros, mas também a Inglaterra das relações familiares, das conversas espontâneas e das tradições preservadas no cotidiano. Cada experiência ampliava meu vocabulário e, principalmente, minha compreensão das diferenças humanas.

Um desses acontecimentos merece destaque especial: meu primeiro passeio a cavalo. Na ocasião, não tive coragem de confessar que jamais havia montado. Sentia vergonha diante dos outros estudantes que participavam do intercâmbio e, por orgulho juvenil, preferi fingir uma segurança que estava muito longe de possuir. O problema é que o cavalo não parecia disposto a colaborar com minha encenação. Em determinado momento, começou a galopar rapidamente, enquanto eu tentava, sem qualquer habilidade, manter o equilíbrio e controlar o animal. O desfecho foi tão inesperado quanto doloroso: acabei batendo com o nariz numa árvore! Imaginem a cena de um jovem brasileiro, vindo da Argélia para aperfeiçoar seu inglês, tentando demonstrar desenvoltura e terminando o passeio numa colisão nada diplomática com a natureza inglesa. Hoje consigo rir daquela aventura, embora naquele instante certamente não tenha encontrado a menor graça. Aprendi que reconhecer nossas limitações não representa fraqueza, mas inteligência. A juventude, entretanto, tem dessas coisas: às vezes preferimos enfrentar um cavalo em disparada a confessar que não sabemos montar.

Nem todas as aventuras aconteceram durante as atividades escolares ou os passeios culturais. Guardo lembranças particularmente divertidas das idas à discoteca local, onde a juventude inglesa se reunia para dançar, conversar e namorar. As jovens inglesas demonstravam grande entusiasmo por nós, estrangeiros, chegando praticamente a nos atacar, evidentemente no melhor sentido da palavra. A situação nem sempre despertava a mesma alegria nos rapazes ingleses, alguns dos quais pareciam considerar nossa presença uma invasão de território e demonstravam vontade de arrumar brigas. Entre músicas, olhares, paqueras, ciúmes e pequenas tensões, descobríamos também as regras não escritas das relações humanas. Hoje recordo esses episódios com humor e ternura. Afinal, a juventude não se constrói apenas com aulas e livros, mas também com aventuras, emoções e descobertas que permanecem na memória.

A convivência com a família Mabey e com os estudantes da grammar school reforçou uma convicção que me acompanha até hoje: o sentimento de pertencimento não depende exclusivamente do lugar onde nascemos. Podemos encontrar acolhimento em diferentes partes do planeta quando existe respeito, generosidade e disposição para compreender o outro. Na Argélia, eu já vivia a riqueza de uma sociedade africana marcada por diferentes influências culturais. No Lycée Descartes, aprendia a importância do pensamento crítico e do debate. Em Andover, descobria outra maneira de viver, estudar e conviver. Essas experiências se complementavam e ajudavam a construir minha visão democrática, plural e solidária do mundo. Minha defesa da diversidade não nasceu apenas das leituras ou dos discursos, mas da convivência concreta com pessoas de diferentes nacionalidades, crenças e tradições.

Quase cinquenta anos depois, durante uma de minhas viagens a Londres, resolvi retornar a Andover num passeio de um dia. Levava comigo a expectativa de reencontrar ruas, paisagens e lugares que permaneciam vivos em minha memória. Entretanto, a cidade havia mudado profundamente. Tive enorme dificuldade em reconhecer os locais que um dia fizeram parte de meu cotidiano. As transformações urbanas e a passagem do tempo pareciam ter redesenhado os cenários de minha juventude. Foi uma experiência emocionante e melancólica. Percebi que não era apenas Andover que havia mudado. Eu também já não era aquele jovem brasileiro que chegara da Argélia para aprender inglês. Quase meio século de viagens, encontros, perdas, conquistas e aprendizados separava aqueles dois momentos de minha existência.

Compreendi, naquele retorno, que existem lugares mais preservados dentro de nós do que na própria geografia. A Andover que reencontrei era diferente, mas aquela que conheci na juventude continuava intacta em minha memória, com a família Mabey, a escola, os passeios, as discotecas, os jantares, o telefonema incompreensível e até o cavalo que me levou diretamente ao encontro de uma árvore. Voltei a Londres com a sensação de ter visitado não apenas uma cidade, mas uma parte de minha própria história.

Hoje, depois de tantas viagens e de uma vida dedicada à educação e ao turismo, considero os intercâmbios instrumentos fundamentais para a formação das novas gerações. Defendo que essas oportunidades sejam ampliadas e democratizadas, alcançando também os jovens que não dispõem de recursos financeiros para conhecer outros países. O contato com diferentes culturas não pode permanecer como privilégio de poucos. Num mundo em que tantas vozes insistem em levantar muros, precisamos construir pontes. A educação deve libertar, aproximar e ensinar que a diversidade humana constitui uma riqueza, jamais uma ameaça.

Guardo profunda gratidão pela família Mabey, pelos professores, pelos colegas e por todas as pessoas que fizeram parte daquela experiência. Se pudesse conversar hoje com aquele jovem que saiu da Argélia para estudar numa pequena cidade inglesa, diria que aproveitasse cada instante, que não tivesse medo de cometer erros e, principalmente, que jamais perdesse a curiosidade diante da vida. Talvez também lhe recomendasse um pouco mais de prudência antes de subir num cavalo!

Fui a Andover para aprender melhor o inglês. Voltei com algo que nenhum dicionário seria capaz de traduzir integralmente: a certeza de que conhecer o outro é também uma maneira de conhecer a nós mesmos. O mundo não foi feito para ser observado à distância, mas para ser vivido, compartilhado e respeitado. As experiências que verdadeiramente nos transformam continuam conosco, iluminando nossas escolhas e alimentando nossa esperança num mundo mais humano, democrático e solidário.

Andover começou como uma aula de inglês e terminou como uma lição de vida. Uma lição que, felizmente, nunca terminou.





MAIS LIDOS