Há países que recebem turistas. A França forma viajantes. A diferença é enorme.
Enquanto boa parte do mundo insiste em tratar o turismo como entretenimento ou mera fonte de divisas, os franceses compreenderam, há muito tempo, que ele é cultura, diplomacia, identidade nacional e estratégia de desenvolvimento. Não é por acaso que a França permanece como o destino turístico mais visitado do planeta. O sucesso não nasceu do acaso, mas da inteligência.
Percorro a França há décadas e, a cada visita, reafirmo uma convicção: ali, o turismo é respeitado. O patrimônio histórico não é abandonado, a gastronomia não é descaracterizada para agradar modismos, os museus não são tratados como despesas, e a cultura nunca é vista como um luxo supérfluo. Tudo faz parte de um projeto de país.
Paris continua fascinante, mas a verdadeira França está muito além da Torre Eiffel. Ela vive na elegância de seus pequenos vilarejos, na monumentalidade de seus castelos, na força de suas regiões vinícolas, na riqueza de seus mercados, na preservação de suas paisagens e na consciência de que memória também produz riqueza.
A grande diferença entre a França e muitos destinos turísticos está na visão de longo prazo. Lá, governos passam, mas a política de valorização do patrimônio permanece. Aqui, infelizmente, ainda confundimos turismo com festas ocasionais, obras eleitoreiras e campanhas publicitárias que desaparecem na velocidade das próximas eleições.
O turismo francês não vende apenas monumentos; vende qualidade de vida, segurança, organização e autenticidade. O visitante sente que está entrando em um país que respeita sua própria história. E um povo que respeita sua história conquista naturalmente o respeito do mundo.
Nem tudo, evidentemente, é perfeito. A superlotação em alguns destinos, o impacto ambiental e as tensões provocadas pelo turismo de massa exigem respostas firmes. A França enfrenta esses desafios sem negar a realidade, buscando preservar seu patrimônio para as próximas gerações. É a diferença entre administrar o sucesso e ser vítima dele.
O Brasil deveria olhar para a França com menos deslumbramento e mais inteligência. Não precisamos copiar seus monumentos nem sua arquitetura. Precisamos copiar sua capacidade de planejar, preservar, qualificar profissionais e compreender que o turismo não é um apêndice da economia: é uma poderosa ferramenta de desenvolvimento, inclusão social e projeção internacional.
A França não é a maior potência turística porque possui apenas beleza. Muitos países também a possuem. Ela lidera porque transformou cultura em política de Estado, patrimônio em orgulho nacional e turismo em compromisso permanente.
Essa é a verdadeira revolução francesa que ainda falta ao turismo brasileiro.
Bayard Do Coutto Boiteux