23/09/2026

Dia Mundial do Turismo-2026-Agenda Digital e Inteligência artificial

 No próximo dia 27 de setembro, celebraremos o Dia Mundial do Turismo. A data foi instituída pela então Organização Mundial do Turismo, hoje ONU Turismo, durante sua Assembleia Geral realizada em 1979, na cidade espanhola de Torremolinos. A primeira comemoração ocorreu em 1980. O dia 27 de setembro foi escolhido por marcar a adoção, em 1970, dos estatutos que deram origem à organização.


O objetivo da celebração é ampliar a consciência sobre a importância do turismo e demonstrar seu valor social, cultural, político e econômico. Mais do que uma homenagem aos que trabalham no setor, a data deve estimular uma reflexão mundial sobre a contribuição do turismo para o desenvolvimento sustentável, a criação de empregos, a inclusão social, a preservação do patrimônio e a aproximação entre os povos.

Em 2026, a celebração internacional oficial será realizada em San Salvador, capital de El Salvador, primeiro país da América Central a sediar o encontro. O tema será “Agenda Digital e Inteligência Artificial para Redesenhar o Turismo”, trazendo para o centro do debate as oportunidades, os limites e as responsabilidades relacionados à utilização das novas tecnologias.

A escolha não poderia ser mais atual. Vivemos um período em que aplicativos, plataformas digitais, sistemas automatizados e ferramentas de inteligência artificial modificam a maneira de escolher destinos, reservar hotéis, comprar passagens, conhecer atrativos e avaliar experiências.

A tecnologia tornou as viagens mais acessíveis, rápidas e personalizadas. Em poucos segundos, podemos comparar preços, elaborar roteiros, traduzir idiomas, localizar restaurantes e receber recomendações construídas a partir de nossos interesses. Para quem, como eu, dedicou quase cinco décadas ao turismo e à educação, essa transformação é impressionante. O viajante contemporâneo dispõe de instrumentos que pareciam ficção científica quando comecei minha trajetória profissional.

Entretanto, é preciso dizer com clareza: a inteligência artificial deve servir ao turismo, e não comandá-lo. Nenhum algoritmo substitui a hospitalidade verdadeira, o sorriso espontâneo, o conhecimento de um guia de turismo, a criatividade de um profissional qualificado ou a emoção provocada pelo encontro entre culturas. A tecnologia pode indicar um caminho, mas somente o ser humano é capaz de dar alma à viagem.

O turismo não é apenas uma atividade econômica. É também um poderoso instrumento de educação, inclusão social, preservação cultural e construção da paz. Quando praticado com responsabilidade, movimenta restaurantes, hotéis, transportes, comércio, eventos, produção cultural, artesanato e inúmeras cadeias de serviços. Gera empregos e renda, mas, sobretudo, aproxima pessoas que muitas vezes foram ensinadas a se enxergar como diferentes.

A inteligência artificial oferece possibilidades extraordinárias para a gestão dos destinos. Pode ajudar a organizar fluxos turísticos, prever períodos de maior procura, aprimorar a mobilidade, ampliar a segurança, identificar o perfil dos visitantes e facilitar o acesso de pessoas com deficiência. Também pode contribuir para a divulgação de localidades ainda pouco conhecidas, descentralizando o turismo e levando oportunidades econômicas para comunidades historicamente esquecidas.

Mas essa transformação apresenta riscos que não podem ser ignorados. A digitalização pode aprofundar desigualdades entre grandes empresas e pequenos empreendedores. Muitos profissionais ainda não possuem acesso adequado à tecnologia nem formação para utilizá-la. Hotéis independentes, guias, artesãos, produtores culturais e pequenos prestadores de serviços não podem ser abandonados em nome de uma modernidade que beneficie apenas os grandes grupos econômicos.

Defender a inovação exige, portanto, defender também a capacitação. Não basta distribuir equipamentos ou criar plataformas. É necessário preparar pessoas. Precisamos investir na formação dos profissionais, fortalecer os cursos superiores e técnicos de Turismo e promover programas permanentes de atualização. A inteligência artificial não pode se transformar em desculpa para eliminar postos de trabalho. Deve ser utilizada para valorizar talentos, ampliar competências e melhorar a experiência do visitante.

No Brasil, continuamos enfrentando problemas muito anteriores à inteligência artificial. Faltam planejamento, continuidade administrativa, sinalização turística, segurança, acessibilidade, informações em outros idiomas e integração entre os municípios. Muitas secretarias de Turismo ainda são tratadas como espaços de acomodação política, quando deveriam ser dirigidas por profissionais qualificados e com conhecimento de gestão.

O Rio de Janeiro, com sua força simbólica internacional, precisa assumir protagonismo nesse debate. Temos natureza, cultura, gastronomia, patrimônio histórico, criatividade e uma população com reconhecida capacidade de acolhimento. No entanto, não podemos continuar dependendo apenas de nossas paisagens. O visitante contemporâneo exige informação, organização, segurança, conectividade e serviços eficientes. É necessário utilizar a tecnologia para aproximá-lo de um Rio que vai muito além dos cartões-postais tradicionais.

Também precisamos enfrentar a proliferação de informações falsas, imagens manipuladas e avaliações produzidas artificialmente. A confiança será um dos grandes patrimônios do turismo nos próximos anos. O viajante precisa saber se o hotel existe, se o serviço anunciado corresponde à realidade e se as recomendações que recebe foram elaboradas com independência. Modernizar o setor sem estabelecer princípios éticos poderá gerar experiências impessoais, enganosas e profundamente frustrantes.

Depois de conhecer mais de 200 países e milhares de cidades, aprendi que as viagens mais marcantes não foram necessariamente as mais luxuosas ou tecnologicamente avançadas. Foram aquelas em que encontrei pessoas, histórias e gestos de generosidade. Recordamos menos o aplicativo usado para fazer uma reserva do que a pessoa que nos acolheu quando estávamos perdidos. A memória afetiva do turismo continua sendo essencialmente humana.

Quero, neste Dia Mundial do Turismo, parabenizar especialmente todos aqueles que não são “chapa-branca”, que não se acomodam diante dos discursos oficiais e que têm coragem de emitir suas opiniões com independência. O turismo não se desenvolve com elogios automáticos, números fantasiosos ou silêncio conveniente. Avança quando profissionais, pesquisadores, empresários, jornalistas, professores, estudantes e representantes da sociedade civil apontam problemas, apresentam propostas e contribuem efetivamente para a construção de políticas públicas mais sérias, transparentes e duradouras. Criticar com responsabilidade também é uma forma de amar o turismo.

Neste Dia Mundial do Turismo, devemos celebrar a inovação, mas sem transformar a tecnologia em um novo objeto de adoração. O futuro do setor dependerá do equilíbrio entre eficiência e sensibilidade, dados e emoções, inteligência artificial e inteligência humana. Precisamos de destinos modernos, mas também acolhedores; conectados, mas não desumanizados; rentáveis, mas socialmente responsáveis.

O turismo do futuro não será construído apenas por máquinas capazes de responder rapidamente. Será construído por pessoas capazes de ouvir, compreender e acolher. A tecnologia poderá redesenhar caminhos, mas caberá a nós decidir aonde desejamos chegar. E nenhum destino valerá verdadeiramente a viagem se, ao final, deixarmos a humanidade para trás.


19/09/2026

Mobilidade de Luxo

 Falar em mobilidade de luxo é ir muito além de veículos sofisticados,

motoristas uniformizados ou serviços executivos. O verdadeiro luxo
contemporâneo está na capacidade de transformar um deslocamento em uma
experiência marcada por conforto, segurança, eficiência, discrição e,
sobretudo, personalização. Quem procura excelência não deseja apenas
chegar ao destino: espera que cada etapa do percurso seja pensada de
acordo com suas necessidades, seu tempo e seu perfil.

É importante deixar claro que não estamos falando de um táxi executivo
de luxo, mas de um serviço de mobilidade pensado de forma mais ampla,
integrado à experiência do cliente e capaz de compreender diferentes
necessidades, perfis e momentos. Durante muitos anos, o luxo foi
associado quase exclusivamente à ostentação. Hoje, essa lógica vem
sendo substituída por valores mais sutis. Tempo, tranquilidade,
privacidade, atendimento humano e capacidade de antecipar necessidades
tornaram-se elementos fundamentais. Na mobilidade, isso significa
oferecer soluções que integrem tecnologia e sensibilidade, sem
transformar o passageiro em apenas mais um número dentro de um
aplicativo ou de uma operação padronizada.

A experiência acumulada no turismo e na hospitalidade ensina também
que nenhum modelo deve ser considerado definitivo. Experiência não
significa fechamento diante do novo; ao contrário, deve ampliar nossa
capacidade de análise. É fundamental estar disponível para ouvir novas
propostas que surgem no mercado, compreendê-las, conhecer suas
diferenças e avaliar com atenção aquilo que efetivamente pode agregar
valor à experiência do cliente. Isso não significa simplesmente adotar
novos modelos porque são apresentados como modernos ou inovadores.
Ouvir não é aderir. Ouvir é respeitar a possibilidade de aprender.
Significa manter abertura para escutar, estudar e entender novas
propostas, preservando sempre critérios de qualidade, segurança,
identidade e excelência.

No segmento de luxo, a mobilidade precisa dialogar diretamente com a
hotelaria, o turismo, a gastronomia, os eventos e o concierge. Um
hóspede de um hotel de alto padrão, por exemplo, não deveria perceber
o transporte como um serviço isolado. Desde o momento em que deixa o
aeroporto até sua chegada ao hotel, e posteriormente em cada
deslocamento pela cidade, deve existir continuidade na experiência.
Informações corretas, pontualidade, conhecimento do destino, atenção
às preferências individuais e capacidade de resolver imprevistos fazem
parte desse novo conceito.

O Rio de Janeiro, por sua vocação turística e pela presença de hotéis
de luxo, grandes eventos, restaurantes de excelência e experiências
culturais únicas, possui condições extraordinárias para avançar nesse
segmento. Mas é preciso compreender que veículos de alto padrão,
sozinhos, não constroem um serviço de luxo. É necessário investir em
pessoas, treinamento, conhecimento da cidade, idiomas, hospitalidade e
inteligência operacional. Um motorista que conhece profundamente o
destino, entende o perfil de quem transporta e sabe agir com discrição
pode representar tanto para a experiência quanto o próprio automóvel.

Outro ponto fundamental é a flexibilidade. O cliente de luxo
contemporâneo não deseja necessariamente protocolos rígidos. Ele quer
soluções. Pode desejar alterar um roteiro durante o percurso, fazer
uma parada inesperada, conhecer um lugar pouco convencional ou
simplesmente permanecer em silêncio. A excelência está justamente em
compreender essas nuances sem invadir sua privacidade. O serviço deve
estar presente quando necessário e quase invisível quando não for
solicitado.

Também é indispensável falar de preço. Luxo não pode ser confundido
com cobrança sem parâmetros. Um serviço diferenciado naturalmente
possui custos compatíveis com sua estrutura, sua qualidade e seu nível
de personalização, mas os valores cobrados não podem estar fora da
realidade. Preço elevado, por si só, não transforma um serviço em
luxo. É preciso haver coerência entre aquilo que se cobra e aquilo que
efetivamente se entrega ao cliente.

A verdadeira mobilidade de luxo nasce, portanto, do encontro entre
experiência, inovação, escuta e sensibilidade. Não se trata de
abandonar aquilo que funciona para correr atrás de todas as novidades
do mercado, nem de rejeitar propostas simplesmente porque rompem
padrões tradicionais. Trata-se de estar permanentemente disponível
para conhecer, ouvir, comparar e compreender novos caminhos, adotando
apenas aquilo que realmente contribui para elevar a qualidade do
serviço.

O futuro do luxo será cada vez menos definido pelo excesso e cada vez
mais pela excelência silenciosa. Na mobilidade, isso significa
oferecer segurança sem ostentação, tecnologia sem frieza, conforto sem
exagero, preço coerente e atendimento sem invasão. O verdadeiro luxo
talvez esteja justamente aí: fazer com que tudo funcione com tanta
naturalidade que o cliente quase não perceba a complexidade existente
por trás de uma experiência perfeita — ter experiência suficiente para
saber o que fazemos e abertura suficiente para continuar ouvindo.

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