11/09/2026

Minha Visita ao Museu do Inconsciente no Rio de Janeiro

Nisie da Silveira 

Há museus que guardam objetos e há aqueles que preservam histórias, mas existem
alguns, muito mais raros, capazes de nos colocar diante da própria condição humana. Foi
essa a sensação que experimentei ontem ao visitar o Museu de Imagens do
Inconsciente, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Cheguei por volta das 10h30 e
permaneci ali por quase duas horas, em uma visita que poderia facilmente ter se
prolongado. Entrei interessado em conhecer melhor a trajetória de Nise da Silveira e saí
emocionado, encantado e também inquieto diante da constatação de que um patrimônio
cultural, científico e humano dessa dimensão ainda não ocupa o espaço que merece no
circuito turístico e museológico da cidade.

Nise da Silveira não foi apenas uma médica à frente de seu tempo; foi uma mulher
que teve a coragem de enfrentar o próprio tempo. Perseguida politicamente e presa
durante o Estado Novo sob acusação de envolvimento com ideias comunistas, enfrentou
também os dogmas de uma psiquiatria que recorria a métodos agressivos que ela se
recusava a aceitar. Sua revolução foi essencialmente humanista: antes da doença existia
uma pessoa e, por trás dos comportamentos incompreendidos e dos diagnósticos, havia
memória, sensibilidade, medo, desejo, afeto e um universo interior esperando uma
possibilidade de expressão.

A própria visita permite compreender essa trajetória de maneira particularmente feliz,
pois a experiência pode ser percebida em três partes que se complementam. A primeira
representa um verdadeiro mergulho na vida e no pensamento de Nise da Silveira,
permitindo conhecer melhor sua trajetória, suas lutas, sua resistência e a dimensão
revolucionária de suas ideias. Não estamos simplesmente diante da biografia de uma
médica, mas acompanhando o percurso de uma mulher que ousou discordar quando
discordar tinha consequências e que enfrentou preconceitos políticos, científicos e
institucionais para defender uma medicina mais humana.

Na segunda parte, encontramos um dos momentos mais belos e impactantes da
visita: os extraordinários trabalhos produzidos pelos pacientes. Quadros de enorme força
visual revelam cores, formas, símbolos e universos interiores que dificilmente poderiam
ser traduzidos em palavras. É impossível observá-los apenas como documentos clínicos.
São obras que possuem beleza, intensidade e identidade próprias e que nos obrigam a
abandonar, ainda que por alguns instantes, os limites confortáveis entre sanidade e
loucura, paciente e artista, tratamento e criação. Nise compreendeu que pintura, desenho
e modelagem não deveriam ser utilizados simplesmente para ocupar o tempo, mas como
caminhos de expressão e comunicação. Onde a palavra muitas vezes não conseguia
chegar, a imagem encontrava passagem.
A terceira parte da experiência acontece em uma casa onde se reproduz parte do
ambiente e do funcionamento ambulatorial, aproximando ainda mais o visitante da
dimensão humana daquele trabalho. Foi ali que fomos recebidos por uma estudante de

Psicologia que atua voluntariamente no espaço e que, com delicadeza e conhecimento,
nos ajudou a compreender melhor aquela experiência. Esse encontro me marcou
especialmente porque demonstra que o legado de Nise não permanece congelado nas
paredes de um museu: ele continua despertando interesse em novas gerações,
envolvendo estudantes, pesquisadores, profissionais e voluntários. A memória, quando
verdadeiramente viva, não se limita a contar aquilo que aconteceu; ela continua
produzindo conhecimento e provocando novas perguntas.

Talvez seja justamente esse um dos aspectos mais fascinantes do museu: a história
não terminou. Até hoje permanece o trabalho relacionado à expressão artística e às
práticas terapêuticas desenvolvidas a partir daquela experiência pioneira. O legado de
Nise continua vivo, e aquilo que hoje reconhecemos amplamente no campo da
arteterapia encontra ali raízes profundas, construídas quando falar em arte como
possibilidade terapêutica ainda causava estranhamento em muitos ambientes médicos.
O museu também me surpreendeu pela estrutura. É organizado, agradável e
acolhedor, contando com lojinha e bistrô, além de uma equipe disponível e
comprometida. Há uma delicadeza no ambiente que parece dialogar com o pensamento
de Nise e transformar a visita em algo muito diferente de uma experiência museológica
convencional. Outro aspecto extremamente positivo é a entrada gratuita. O museu
funciona de terça-feira a sábado, das 10h às 16h, oferecendo ao carioca e ao visitante
uma oportunidade cultural de enorme valor sem qualquer custo de ingresso.
Depois de quase cinco décadas dedicadas ao turismo e à educação, entretanto, não
consigo percorrer um espaço dessa relevância sem observá-lo também pela ótica
turística. E surge uma pergunta inevitável: por que o Museu de Imagens do Inconsciente
ainda não está plenamente incorporado aos grandes roteiros culturais do Rio de Janeiro?
Temos uma instituição singular, associada a uma brasileira cuja contribuição ultrapassou
as fronteiras nacionais, reunindo no mesmo espaço arte, ciência, medicina, história,
memória e direitos humanos. Mesmo assim, sua presença na promoção turística da
cidade ainda é muito tímida.

Há também um aspecto que precisa ser revisto: a pouca disponibilidade de
informações em inglês ao longo da visita. Para um museu com tamanha vocação
internacional, informação bilíngue não pode ser considerada luxo ou detalhe; é
instrumento básico de acessibilidade cultural e turística. Se queremos mostrar aos
estrangeiros um Rio que ultrapasse praias, samba e cartões-postais, precisamos permitir
que eles compreendam integralmente histórias brasileiras tão universais quanto a de
Nise da Silveira.

O Rio precisa redescobrir o próprio Rio. Uma política contemporânea de turismo
cultural não pode continuar oferecendo quase sempre os mesmos lugares enquanto
instituições extraordinárias permanecem fora dos principais percursos divulgados aos
visitantes. O Museu de Imagens do Inconsciente poderia integrar de maneira muito mais
efetiva circuitos de turismo cultural, científico, universitário, histórico e de memória,
estabelecendo diálogos com hotéis, universidades, operadores turísticos, guias de

turismo e instituições internacionais. Colocá-lo no mapa turístico não significa banalizá-lo
ou transformá-lo em atração comercial, mas reconhecer a força de um patrimônio capaz
de revelar um Rio intelectual, humanista e surpreendente.
Minha visita adquiriu ainda uma dimensão profundamente afetiva quando,
percorrendo aqueles espaços, lembrei-me de minha prima Maria Lúcia Boiteux, que
esteve, em alguns momentos de sua trajetória, próxima de Nise da Silveira. A lembrança
surgiu espontaneamente e fez com que aquela experiência cultural se tornasse também
familiar e íntima. Por alguns instantes, história brasileira, memória familiar e emoção
pareciam compartilhar o mesmo espaço, mostrando como determinados lugares
possuem a extraordinária capacidade de aproximar pessoas e tempos que imaginávamos
distantes.Senti falta de uma sinalização interna para encontrar os diversos setores.

Saí do museu emocionado, mas sobretudo pensando na atualidade da mensagem de
Nise. Talvez sua maior contribuição ultrapasse os limites da própria psiquiatria: ela nos
ensinou que ninguém deveria ser reduzido a um diagnóstico, uma diferença ou um rótulo.
Onde muitos enxergavam apenas pacientes, ela encontrou pessoas capazes de criar;
onde outros percebiam desordem, procurou linguagem; onde parecia existir apenas
silêncio, encontrou imagens, cores e possibilidades de comunicação.
O Museu de Imagens do Inconsciente merece ser mais conhecido pelos cariocas,
visitado pelos brasileiros e apresentado aos estrangeiros. Escolas e universidades
deveriam frequentá-lo, profissionais do turismo deveriam incorporá-lo aos seus olhares e
roteiros, e aqueles que trabalham com a promoção do Rio deveriam perceber que existe
uma cidade extraordinária para além de seus cartões-postais. Cheguei às 10h30 e,
quase duas horas depois, atravessei novamente a porta de saída levando muito mais do
que informações sobre Nise da Silveira. Há visitas das quais guardamos fotografias,
outras das quais conservamos lembranças e algumas, muito mais raras, que modificam
discretamente nosso olhar. Entrei naquele museu para conhecer um pouco mais sobre o
inconsciente dos outros e saí encontrando, inesperadamente, fragmentos da minha
própria memória.
A Arte que.nasceu dos pacientes 
A beleza e perfeição dos quadros 




A perseguição política de Nisie 






02/08/2026

A França,como exemplo de Produto Turistico

 


Há países que recebem turistas. A França forma viajantes. A diferença é enorme.

Enquanto boa parte do mundo insiste em tratar o turismo como entretenimento ou mera fonte de divisas, os franceses compreenderam, há muito tempo, que ele é cultura, diplomacia, identidade nacional e estratégia de desenvolvimento. Não é por acaso que a França permanece como o destino turístico mais visitado do planeta. O sucesso não nasceu do acaso, mas da inteligência.

Percorro a França há décadas e, a cada visita, reafirmo uma convicção: ali, o turismo é respeitado. O patrimônio histórico não é abandonado, a gastronomia não é descaracterizada para agradar modismos, os museus não são tratados como despesas, e a cultura nunca é vista como um luxo supérfluo. Tudo faz parte de um projeto de país.

Paris continua fascinante, mas a verdadeira França está muito além da Torre Eiffel. Ela vive na elegância de seus pequenos vilarejos, na monumentalidade de seus castelos, na força de suas regiões vinícolas, na riqueza de seus mercados, na preservação de suas paisagens e na consciência de que memória também produz riqueza.

A grande diferença entre a França e muitos destinos turísticos está na visão de longo prazo. Lá, governos passam, mas a política de valorização do patrimônio permanece. Aqui, infelizmente, ainda confundimos turismo com festas ocasionais, obras eleitoreiras e campanhas publicitárias que desaparecem na velocidade das próximas eleições.

O turismo francês não vende apenas monumentos; vende qualidade de vida, segurança, organização e autenticidade. O visitante sente que está entrando em um país que respeita sua própria história. E um povo que respeita sua história conquista naturalmente o respeito do mundo.

Nem tudo, evidentemente, é perfeito. A superlotação em alguns destinos, o impacto ambiental e as tensões provocadas pelo turismo de massa exigem respostas firmes. A França enfrenta esses desafios sem negar a realidade, buscando preservar seu patrimônio para as próximas gerações. É a diferença entre administrar o sucesso e ser vítima dele.

O Brasil deveria olhar para a França com menos deslumbramento e mais inteligência. Não precisamos copiar seus monumentos nem sua arquitetura. Precisamos copiar sua capacidade de planejar, preservar, qualificar profissionais e compreender que o turismo não é um apêndice da economia: é uma poderosa ferramenta de desenvolvimento, inclusão social e projeção internacional.

A França não é a maior potência turística porque possui apenas beleza. Muitos países também a possuem. Ela lidera porque transformou cultura em política de Estado, patrimônio em orgulho nacional e turismo em compromisso permanente.

Essa é a verdadeira revolução francesa que ainda falta ao turismo brasileiro.

Bayard Do Coutto Boiteux






MAIS LIDOS